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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

guerra inútil

saio com dificuldade
dessa guerra inútil
de estopim fútil
e quebra de serenidade

pelo quê estou pagando?
e este armamento?
quem eu enfrento?
seu sorriso de sempre está quebrando

acabou na minha mão
mas na minha mente, não
minhas lágrimas ainda caem

meu coração dói
e minh'alma se corrói
as memórias que me valem

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

botas pretas e pesadas

você não pode me machucar mais
eu fui embora
acabou, agora
saí andando sem nem olhar pra trás

pegue aquelas suas botas pretas e pesadas
e siga seu caminho
ninguém vai maltratar seu coraçãozinho
você nem vai se lembrar das lágrimas passadas

saia daqui, homem gigante
ninguém aqui quer você
procure um novo começo num lugar bem distante

agora eu sou grande também, não vê?
sua raiva no final é tocante
mas agora estou livre, e livre quero ver você ser

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

biscoito murcho

eu sou um biscoito murcho
no seu pote transparente
mas você não me vê, infelizmente
mais pra baixo eu me puxo

eu sou um biscoito velho
jogado no meio de tantos
molhado por meus prantos
sou mesmo um caso sério

cuidado pra não me partir
quando me segurar
cuidado para não me deixar cair

não pode no café me molhar
você olha com nojo para mim
e me joga de volta na jarra para chorar

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

invulnerabilidade delinquente

você nunca me contou
qual era o seu segredo,
sua fraqueza, você se foi tão cedo
e meu espírito gritou

sempre armado e sorridente
blindado e imbatível
mas, aos humanos, isso é incompatível
essa sua invulnerabilidade delinquente

não se reprima deste jeito
liberte suas trancas
e contemple este efeito

suas lágrimas francas
nunca serão defeito
sorrisos sinceros e palavras brancas

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

homem de berlim

eu não sei nem o que estou dizendo,
mas você faz parecer tão certo
você parece tão esperto
eu só continuo sorrindo e obedecendo

quem é que sabe o que estamos fazendo?
ouço sua voz e vou
sem saber por onde esse som passou
ou o que são estes pés e mãos ardendo

essa história curta e sem noção
de tão curta já teve um fim
mas você diz pra não me preocupar com o coração

que tudo vai ficar bem, sim
e não preciso de distração
será que eu posso confiar no homem de Berlim?

terça-feira, 24 de novembro de 2015

é isso que nos faz escritores II

a enxaqueca me ataca
a dor badela singela
na espiritual cela
e já se foram todas as minhas patacas

mas ainda nesse sofrimento
não esqueço da primeira lição
"tenha o coração sempre à mão"
mas não consigo aplicá-la no momento

tudo ao meu redor gira
e as veias tapadas
não é busca por algo que inspira

mente e alma marcadas
meu corpo a si próprio se revira
nas temperaturas elevadas

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

para o homem da alma rasa

você não sorri mais
o preto tomou conta
nada belo aponta
algo ainda o satisfaz?

pintei nossa casa
num tom mais negro que a pupila
o homem mais triste dessa vila
é o meu, de alma rasa

minha boca é quente ainda
para dizer, meu amor,
que a escuridão não é bem-vinda

nem toda essa dor
na sua alma que não finda
vou tratar, sim, com meu calor

sábado, 14 de novembro de 2015

o papel principal sou eu

nasci pra estrelar
e no seu coração confuso
o papel principal é o que eu uso
ao menos deveria usar

é que parece uma piada
entrar na peça da vida
se minha participação mal tem fala a ser lida
e não preciso de figurino nem nada

e eu prefiro ficar sozinho
do que ser um secundário
só mais um no seu coração

você acha um novo caminho
não há personagens no meu páreo
não fui feito pra dividir a sua atenção

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

mas ele me AMA

ele é MAU
                  ele é BRUTO
                  mas ele me AMA
                                              ele me
                                                bate
                                             e GRITA
                        com, e por amor
                                                 mas ele me AMA              me vendeu duas vezes
                                                 mas ele me AMA

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

das profundezas do nirvana

ele tem defeitos, é claro,
mas o coração de ouro
e sorriso duradouro
isso, sim, é raro

o estado de paz interior
faz inveja aos loucos
com objetivos poucos
mas de nível superior

ele não aparece tanto
e com todas as cores
tranquilo no seu canto

desabrocha como as flores
por enquanto,
esconde as suas dores

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Marilene

dança como brasa
livre e apaixonada
mesmo com alma pesada
pra voar dispensa asa

ela, que a todos encanta,
engana a própria sorte
como se fosse um esporte
e não colhe do que planta

volúvel e esperta
carrega o coração na gaiola
dança o amor que desperta

por sua saiola
nega qualquer tipo de oferta
e deseja o amor não-plano de bola

domingo, 1 de novembro de 2015

poesia social

pediram poesia social
pra o cara antissocial
da sociedade, o grande mal
o que faria, afinal?

tentou falar de feminismo
mas se perdeu no seu machismo
desistiu do patriotismo
de violência, heróis e sentimentalismo

quebrou a cabeça por horas
perguntou e levou foras
falhou ao se inspirar nas auroras

no último momento
em total desalento
captou o movimento

narrou seu bater de asas
e iluminaram-se as casas

o mundo sorriu
e ele aplaudiu

a inspiração é ama-de-leite do sucesso

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

é isso que nos faz escritores

já não canso ou descanso
me entrego de corpo e alma
à magia da palavra alva
em vão gastei nas penas de ganso

é isso que nos faz escritores
não queremos glória em meio às dores
a inspiração nos trata como à flores
e a mácula divina da poesia nos tira de amores

dos vinte aos setenta anos
o brilho lírico aos olhos dança
como acender de fósforo, formação de trança
no papel, barreira à quem amamos

é isso que nos faz poetas
não queremos placas ou setas
sem inferno ou paraíso, apenas a festa
com livros, canções e a marca na testa

bebendo vida em linha
transcrevemos o que sentimos
cruzando com o lápis infinitos
batizando compromissos com ocupações de mentirinha

é isso que nos faz menestréis
cômodos desaparecidos em tufões de papéis
nada de igreja, é na palavra nossas fés
e só o choro de júbilo mancha os pés

é isso que nos faz estar vivos

domingo, 25 de outubro de 2015

filho do vinagre

sou filho do vinagre que molhou a boca de Jesus
fui marceneiro com as lascas da cruz
passei por eras de céus azuis
mas não sei mais onde me puz

e se tudo um dia tem um fim
será que eu também serei assim?
já me fui bom, como fui ruim
e inútil seria, agora, que se explicasse tintim por tintim

mas não tem luz no fim do túnel medonho
e eu sei direito que não é um sonho
nem tenho, tive, ou terei, guia idôneo

agora que choro ao seio da Eternidade,
enquanto eles tentam medir minha idade,
meu pranto ecoa para sempre por toda e qualquer cidade

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

alcachofra

é como alcachofra
com seus espinhos
sentimentos sozinhos
querendo que eu sofra

o bom me espera
no coração da fruta
no coração da luta
e eu rujo como fera

sinto a distância
mas com cheiro de esperança
um dia chegarei

mesmo nessa ânsia
esse esforço não me cansa
o melhor eu lhe darei

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

negro e murcho

o sol não brilha mais
e o oceano secou
quando você me deixou
negro e murcho lá atrás

não sorrirei jamais
o motivo acabou
meu coração quebrou
como o dia que se desfaz

terça-feira, 20 de outubro de 2015

por você meu sino dobra

sou um sino a badalar
toco uma canção
para todos que aqui estão
venha me ouvir até o mundo acabar

vou soar no seu ser
faço uma promessa
singela, é essa:
soar até a gente morrer

a música bela
diante de sua mente
melancólica se revela

invade o que você sente
e você tem orgulho dela
até que eu cesso de repente

e nos perdemos no silêncio
e nós morremos no firmamento

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

suco de tamarindo

pra quem tem medo
pra quem acorda cedo
pra quem não sabe
pra quem acorda cedo porque não sabe que tem medo que acabe

pra quem não tem rotina
pra quem coça muito a retina
pra quem faz dias que não come
pra quem coça a retina porque está há dias sem rotina e com fome

pra quem tem dor
pra quem quer amor
pra quem vai fazer aniversário de casamento
pra quem ama fazer aniversário mas não consegue superar a dor do momento

pra quem queria vencer
pra quem esqueceu como viver
pra quem chorou por não ter convidados
pra quem esqueceu de convidar os vencedores para estrear seus calçados

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

não te deixei ser rude

não precisa sofrer
pra conhecer
o melhor pra você
um dia vai aprender

mas o tempo não para
e a vida é muito cara
essa sua beleza, rara
como o canto da Iara

temo que isso não ajude
mas eu fiz o que pude
não te deixei ser rude
e te limpei de grude

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

não me peça pra voltar

não me peça pra voltar
eu andei por tanto tempo
perdi tantos momentos
tentando te encontrar

me beije seco e duro
enquanto os anjos cantam
que te encontrei e declamam:
"achou-se o amor puro"

me segure forte
pois não quero te perder
cura meus cortes

será primoroso conhecer
do meu amor, o porte
e com você morrer